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4.3.16

Amizades, casamentos e rocamboles


            Bernardo e Jackson se conheceram num destes cursos técnicos do SESC, começaram a fazer trabalhos juntos e descobriram certa afinidade, ambos recém-casados resolveram fazer programas de casais, que basicamente se resumiam a jogos de cartas e cervejas meia-boca.
            Passados 15 anos de amizade séria sob a vida medíocre do proletariado tardio, até que um dia Jackson sofre um acidente de trabalho e torna-se um peso, para todos. Cintia sua mulher, se dedica ao marido inerte após seu horário de vendedora de móveis descartáveis; ela é uma pessoa boa, e sua criação luterana a sustentam em tais valores.
            Seus amigos Rita e Bernardo continuam a fazer visitas ao casal, porém a jogatina foi afetada, e o número de cervejas no mercado foi reduzido em 40%, já que era a custa do invalidado grande parte da festa alcoólica.
            Rita como o nome já diz, é devota de santa Rita e Bernardo como o nome já diz, de ninguém, após a catequese ele preferiu se dedicar ao Iron Maiden.
            Lá se vão cinco, seis anos e o homem na cama, responde com olhos feéricos as histórias do amigo, às vezes ambos ficam a sós, Cintia aproveita para viver nestas horas.
            Neste ano o aniversario do aposentado caiu numa data ruim, numa segunda-feira, num dia de chuva, nem frio, nem quente, num dia sufocante de gás carbônico e rotina, mas Bê pediu dispensa, disse que faria o turno da noite, pois iria hoje ver seu amigo, comprou-lhe um charuto e rumou ao bairro vizinho; ao chegar, Cintia o esperava ansiosa para ir ao mercado, à panificadora, ao boteco, comprar um bolo, um rocambole, um sonho de nada, enquanto os amigos fumavam e bebiam conhaque e relembravam... não havia nada a relembrar de suas vidinhas.
            Cintia mexia nas sacolas, fazia um café, Bernardo com 1/3 de charuto na boca ofereceu à amiga, ela puxou, cuspiu no tanque e se apoiou na pia para pegar uns pratos, ele secamente lhe pergunta:
_ E se nós transássemos?
_ O que?
_ Você tem feito sexo?
_ Não! É óbvio que não. (Indicando o quarto com os olhos).
Ele a pega pela cintura, beija seu pescoço, levanta sua saiam se apoiam na mesa, xícara cai, jarra cai, muito barulho, eles fodem, fodem, fodem como se estivessem numa realidade virtual que projetaria uma praia nunca habitada, fodem sobre a mesa e sobre o rocambole, fodem com o respeito de velhos amigos, pela velha amizade, fodem e gozam como nunca, enquanto isso, no quarto, Jackson espera o sonho de goiaba, ou talvez delire imaginando imperfeições etéreas de um deus obsoleto, corroído pela chama dos remédios, este em muito foi esquecido pelas orações da mãe pentecostal, enquanto Cintia e Bê comemoram sabe-se lá o quê, com um pobre café preto, ele delira com as curvas de Rita que ele teima em foder em segredo, com a densidade colérica de um pecador.

Diego Marcell

8/11/14

17.2.16

Dostoiévski via Nelson Rodrigues


            Dostoievski via Nelson faria um conto sobre o professor que transava com as alunas e as tratava bem na escola, mas às tratava super mal na rua, onde elas ficavam traumatizadas e o chamavam de monstro, chorando. Ele então repelia tais atos dizendo
_ É bom irem se acostumando porque depois de casados vocês se acostumarão a ponto de verem a naturalidade de tal ato!
            O conto era pensado pelo escritor que no coletivo havia sentado atrás de um homem cafuzo e um velho descendente de índios do Paraná e no banco ao lado um homem negro do exercito brasileiro.
            O índio de cavanhaque branco não olhava para o lado exceto ao passarem as moças de legging; já o mameluco encarava nosso cabo, este assustado, nervoso, se mexia, mexia em algo, no bolso, na carteira, parecia com medo, parecia o alvo, era o alvo de uma divida anônima, antiga, então o ônibus parou, o negro de pé, o escritor de pé mais atrás, os outros dois sentados, o negro parou, o escritor continuou, facada no crânio, e a mente do homem em coma repete – Dostoiévski via Nelson faria um conto... -.
            O médico, a mãe, o sogro, a enfermeira, a faxineira, todos ouvem ele balbuciar
_ Dostoiévski via Nelson faria um conto.
Voz de bêbado, ele está chapado de remédio na veia.
            Ou então ele para, e não seria nenhuma grande bosta aos dois.

Diego Marcell

7/11/2014

14.2.16

Pass... world


            Estava nu diante do papel, deitado inconsciente, na hora que ninguém sabe, que ninguém vê, sentindo o cheiro com, mas em experiência individual.
            Eu virava os olhos e enxergava um mundo imaginado, talvez sonhado num delírio de passado-futuro.
            Você reconhece um Caravaggio? Ela perguntou pra mim, eu disse que não, o velho estudo se virou com dureza e sorriu de canto,
_ Só gosto do seu nome, nada mais.
_ Mas você não estudou?
_ Tenho diploma, é só. No momento estou mais preocupado com os fatores químicos no meu cérebro.
            Me cobri e sumi na escuridão, nadei em busca do silêncio, algo dificílimo de encontrar por hoje.
_ Sou um auto executivo.
_ Alto executivo?
_ Auto executivo, eu me executo como ninguém me executaria.
            Uma vez eu li um conto de uma mulher, mas eu não me lembro... será que era daquele cara que escreveu Bola de Sebo? Mas eu prefiro pegar no meu pau.
            Porra, o computador ligou sozinho, justamente quando estava pensando no meu site pessoal de escritor.
            Veio um banner na tela, sobre mulheres que querem sexo, ela é loira como a Daryl Hannah em Blade Runner, ou seja, tem o cabelo daquele jeito.
            Acho que vou beber um vinho, só resta uma taça, mas preciso ficar aqui escondido antes que ela me puxe para dentro da máquina.
            Já aos 15 anos eu analisava a passagem do tempo, fazendo análise sobre um ano marcante quatro anos antes.
            Ela quer foder com o computador, como será isso?
            Estou ouvindo sons, batidas, mosquitos ou poemas, agora latem, mas aqui nunca houve cachorro.
            A sirene me roubou a consciência quase aterrissei num túnel limpo de um software 3D, volto porque sinto novamente o cheiro do papel.
            Hoje a rua tá violenta, sábado à noite eu ouço tudo daqui.
_ Vamos ao parque amanhã? Ela pergunta.
_ É evidente que não! Eu respondo.

Diego Marcell

9/8/14

1.2.16

Master junkie


            O mote do ficcionista é a pobreza, ter que andar de ônibus; quando ganhei minha primeira centena de milhares de dinheiro eu já não escrevia, fui piorando tematicamente gradualmente, não o estilo em si, mas de nada serve o estilo quando não se tem nada para dizer.
            Hoje resolvi experimentar a velha sensação de pegar o ônibus às 19 horas horário de Brasília. Não me vesti de operário, seria over e não seria eu nem para certa experiência. Tomei banho, me perfumei, passei gel nos cabelos e vesti um blazer, não o top, isso seria babaquice, um blazer do dia a dia, da noite.
            O cheiro de merda contrastava o meu perfume, eu tentava descobrir se era alguém ali que tinha pisado na merda, vi uma marca no degrau, mas acho que não era a merda raspada de algum calçado.
            As coisas que analiso nos pobres são difíceis de expressar, ainda mais agora, depois de tantos anos sem escrever sobre coisas reais transferidas à ficção; essas coisas dos pobres, a decadência dessa gente, os velhos pobres sem perspectiva do que fazer, além de comer e criar uma montoeira de outros pobres. Quase como a minha vida, que também não almeja mais nada, mas eu tenho um charuto pra fumar e nenhum outro ser para cuidar, seja pobre ou rico.
            Entrei num beco escuro cercado de velhos prédios pichados abandonados ou que servem de pensionato, geralmente para putas e drogados. Uns caras jogam cartas de pé no frio, apoiados num sinalizador de concreto da ciclovia, paro para admirá-los a certa distância, não paro por completo, tenho certo medo, eles são mal encarados; então vejo um agito de carros e bares na rua que cruza a próxima esquina, sigo em direção, vejo um velho cinema que hoje recebe shows adultos, neste momento passa próximo a mim, quase no meio da rua um conhecido que a 30 anos atrás era traficante em minha cidade, eu sou do interior do estado. A principio quero passar despercebido, o que de fato ocorre, então mudo de ideia.
_ Ei João...
            Ele se vira assustado.
_ E aí?
_ E aí. (Agora somente ressabiado).
_ Tem uma erva?
_ Como sabe meu nome?
_ João é uma forma de chamar.
_ Mas parece que eu te conheço.
_ É, você também me parece conhecido, você é de Morada!?
_ Ah, e como você sabia que tenho erva?
_ Não conheço quem tenha, então imaginei que por aqui a probabilidade de encontrar seria grande.
_ Pô cara, mas eu não tenho, só pó.
_ E sabe com quem eu consigo?
_ Quanto você quer?
_ Não pode ser muito porque estou de ônibus e não tenho bolsa.
_ 30?
_ 50!
_ 100?
_ 30!
_ Vem comigo.
            Ele sacou o celular e pareceu escrever para alguém. Chegamos num boteco, ou seria boate? Cheia de espelhos nas paredes. Entramos, ele deu uma olhada em volta, se dirigiu a uma mesa, sentamos, bom... eu fui sentando, não sei se era assim, havia um homem magro de pele envelhecida e manchada de sol que não sei presumir a idade, ele chamou o garçom e fez um sinal que queria dizer, como uma pergunta, o que eu queria, fiquei na dúvida se era bebida ou erva, acho que ele deduziu isso.
_ Bebe o que?
_ O mesmo que você.
            Isso foi uma forma de prepotência calculada misturada a dúvida, mesmo. Me trouxeram uma bebida horrível, amarga pra cacete, era um misto de biter com mijo do capeta.
_ Ele quer 50.
_ Só isso?
_ É que eu to de ônibus e não tenho bolsa.
_ Velho, parece que faz uma cara que você não fuma, vou te arranjar um negocio doido, mas toma cuidado, pode dar convulsão em abstêmico.
_ Não faz tanto tempo assim.
            Sei que essa hora era pra dizer que o João tava se amassando com umas putas, mas a real é que ele era um fraudinha, uma espécie de nerd que foi pro lugar errado.
_ Passa a nota aí, pode deixar que a bebida eu acerto.
            Saí da boate, mas ainda insatisfeito com meu estado sóbrio, resolvi achar alguém pra bolar um beck pra mim. Fui saindo calmamente daquele fervo, mas não a ponto de me isolar de um lugar povoado, até que me deparei com um casal que conversava a uns 10 metros de um bar que fica na esquina, eram jovens, quanto jovens pensem o que quiserem, eram elegantes, mas compatível à idade, seja lá a idade que for, estavam concentrados em algo, parece que fotografavam com suas máquinas invisíveis algum fato microscópico, eles riam, às vezes na iminência de gargalhar.
_ Vocês tem seda?
_ Se for bom o que você tem aí, eu posso ir lá pra dentro providenciar. (Disse o rapaz).
_ Foi a promessa, mas pra mim também será novidade.
            Ficamos eu e a garota.
_ E aí?
_ Qual é velho? Resolveu pirar hoje ou faz isso com frequência?
_ Com frequência. E você, com sua máquina da mulher maravilha, é sempre assim?
_ Só nos dias que mamãe deixa. Quando digo mamãe, quero dizer, agência.
_ É modelo?
_ Atriz e manequim.
_ E cantora?
_ E domadora de feras radicais, tipo o Bicho aí.
_ Toma... (passando pra mim).
_ Você bola?
_ O Parkinson não o permite (disse a moça).
_ É ponta firme (disse o rapaz depois de 15 minutos e algumas bolas).
_ Ele quis dizer que era de confiança a dica, mas parece que ele, cai, na língua do, sapo...
_ Do gênio ... (saiu da minha boca).
_ Vamos seguir. (disse ele 10 minutos além, a mais).
            E fomos pelas ruas frias em direção ao centro, tropicando em praças e xingando partidos e nomes de políticos famosos contemporâneos e também aqueles que tem seus bustos nas praças.
            Ela se dependurou na cabeça de Santos Dumont e gritou para uma travesti:
_ Ei guria! Já andou de avião? Sabia que não foi este cara que inventou o tal do avião? É foi não! foram os irmãos Coen...
_ Esses não são os cineastas? (Perguntei).
_ Não, cineastas são os irmãos Lumière (disse o outro).

Fim alternativo para chapado.

            Então caí num buraco na calçada, e tive que ser levado pelo SAMU.
            Os médicos fumaram minha maconha e enquanto isso abriram meu cérebro e assopraram a fumaça nele e fiquei mais chapado que os três juntos, acordei num meta-sonho, costurando minha pele neste conto.

Diego Marcell

28/7/2014

30.1.16

Banco online


            Essas histórias de contas de banco online são um problema, conta em banco em si já é um problema. Toda essa burocracia para o funcionamento da sociedade, eu até entendo, mas é um grande problema, ainda mais pra mim, que sou escritor, que me escondo e fujo de muita coisa, certa vez me obrigaram a abrir uma conta no Paypal, é que eu havia ganhado um premio, mas não tinha nada a ver com literatura, era um premio fotográfico de países de língua portuguesa, mas sendo fotográfico não precisaria necessariamente ser de língua portuguesa os países do premio, quem sabe era só pra delimitar a coisa. Tirei o terceiro lugar e então eles me enviaram o dinheiro numa conta Paypal, cerca de R$2700,00, o que deu para pagar a edição do meu 1º livro; desde então nunca mais usei a conta, e já estou no 13°, o segundo com editora, apesar de pequena, ela porém envia o dinheiro pra minha conta no Banco do Brasil, ainda assim não gosto, sempre acho que saio perdendo.
            Um dia recebi um email dizendo que minha conta Paypal estava com problema, mas não liguei muito, já que não havia mais dinheiro nela. Porém depois de três meses recebendo email resolvi acessá-la, não consegui, mudaram a senha. Então fiz todo aquele procedimento para requerer nova senha, duas semanas depois finalmente entro na conta online e vejo os dados todos trocados, os dados são de uma tal Tereza Alencar do Amapá, sabe quantas Terezas Alencar existem? No Amapá!
            Anotei todos os dados e fiquei muito puto por não poder terminar “O jovem audaz no trapézio voador” de Willian Saroyan, abri a geladeira cortei uma fatia grossa de queijo e enquanto mastigava pensava na filha da puta da Tereza do Amapá, urbanamente falando, prestes a sair minha barriga ainda roncando e meu livro abandonado no sofá, restando três peixes crus enrolados na cebola, também conhecidos por rollmops, num vidro na mesma geladeira que havia pego o queijo, rollmops sempre sustenta por um bom tempo, mais que o queijo amarelo.
            Enquanto eu comia tive outra ideia, a tempos que eu queria comprar uma série de livros novos nestas megastore’s, uns autores brasileiros reeditados, tudo novinho, no plástico, chega de comprar em sebo, ratifiquei.
            R$389,90 na conta compartilhada com a tal Tereza, livros que terei prazer em abrir e não ler.
            Três dias depois o telefone toca, é o meu editor, quer que eu vá à editora para acertar umas questões do ultimo livro.
            Marcão Alvarez me recebe com seu jeito dúbio de sempre e me pergunta:
_ Você já ouviu falar em Paypal?
_ Já (respondo reticente).
_ Estamos pensando em usar uma conta Paypal para fazer algumas transferências pra você.
Entra um funcionário com um livro meu.
_ Veja como ficou...
_ Deus ex-machina.
_ Ainda não – diz Marcão – pra ser óbvio, tome um cigarro.
_ Não é gudang.
_ Não é gudang.
_ O Tiago tem gudang – diz o funcionário. Ele sai da sala, as luzes da editora se apagam, ficamos eu e Marcão nos olhando em silencio, depois de certo tempo Marcão se serve com whisky.
_ Você não vai me oferecer?
            Ele continua como se eu não estivesse ali, a não ser como imagem, ele então bebe e fuça uns papéis, tira da gaveta um livro velho, um livro meu, dos primeiros, ainda sem editora, um livro de poucas impressões, é o quarto mais precisamente, e começa a folhá-lo.
_ Este livro é ótimo, infelizmente nunca venderia, a não ser por uma mulher.
_ Esse papo de livro de homem e livro de mulher é balela.
_ Quem é o dono de uma editora?
_ Então me diga o que tem neste livro?
_ Paixão!
_ Balela.
_ Você sabe de onde eu sou?
(clec)
            Alguém abriu a porta. Uma mulher muito negra e muito sexy usando um chapéu vermelho e um sobretudo bege, igual aqueles dos filmes.
_ Esta é Tereza.
_ Tereza Alencar?
_ Tereza Valentin García Lobo.
_ Ela é...
            Interrompo.
_ Proprietária da conta? Alencar?
_ Valentin García Lobo!
_ E o Alencar é artístico? Não pode.
_ Não tem Alencar, pare de fazer isso com a moça.
_ Tudo bem. (Ela responde com seu tom cada vez mais sexy).
_ É pelo dinheiro dos livros que vocês me chamaram?
_ Não. Diz Marcão.
            Confesso que estou um pouco assustado.
_ Olha aqui rapaz! (Marcão levanta a voz).
            Eu agarro ele pela cintura derrubando-o e no chão aplico um katagatame lembrando meus anos de luta na adolescência. A tal Tereza tenta me soltar, ela diz que ele desmaiou, então eu o solto. No desespero proponho:
_ Vamos, não temos muito tempo.
_ Pra onde?
_ Pro Paraguai, talvez.
_ Eu não quero ir ao Paraguai.
_ Você tá de carro?
_ Sim. É o Escort preto.
_ Vamos pro litoral, lá deve estar um pouco quente e poderemos baixar a capota.
            Eu só pensava como era bela a noite em movimento fora do carro, e como era linda essa tal de Tereza que dirigia o Escort conversível.
_ Mas, afinal, por que você fez aquilo com seu antigo editor?
_ Antigo?
_ Sim, ele não chegou a te contar?
_ O que? Que ele faz parte de uma máfia que trabalha na fronteira do Amapá com a Venezuela e que eles roubam conta de banco online?
_ Não, seu bobinho.
_ Ele não é da máfia?
_ O Amapá não faz divisa com a Venezuela!

Diego Marcell

28/7/2014

28.1.16

Olho de peixe na salmoura


            Ouça o barulho do meu sapato correndo sem direção no asfalto úmido da madrugada, uma metrópole do mundo que abriga histórias sem nexo e barulhos ensurdecedores de máquinas e caminhões durante o dia.
            Eu paro pra fumar contraluz e decido ir a um bar de chinês que talvez frequente algum conhecido, é uma possibilidade mas não uma certeza.
            Sento no balcão e na dúvida, ainda não beberei meu Domecq, pedi a cerveja que acho boa, mas não a maioria. O china nunca lembra da minha cara ocidental, mas eu não me esqueço da dele, apesar de ser chinês. Hoje estou calmo e até aguento três minutos do papo furado da mulher do chinês, a china. Logo depois me viro para admirar os clientes, eu chamo de público, e resolvo ascender o meu gudang, aqui neste tempo e lugar, podemos sim, ascender e fumar algumas coisas. Senta um velho gordo e forte ao meu lado, um cara rústico mas urbano, seco porém não aparenta ignorância demasiada como a maioria possível ali. Estou estranho a ponto de puxar um assunto com o velho, ou melhor, vou falando de cara:
_ Meu objetivo é construir uma máquina que me anule, é sim, que anule a mim, mas não chamarei ela de “autoanulante”, preciso pensar num nome melhor, você sabe do que se trata?
            Ele é que parece me anular com seu desdém, geralmente os velhos e ainda mais os velhos nos bares de china e ainda mais os velhos nos bares de china que sentam no balcão, adoram um papo. O velho roda seu copo sujo de purinha, dedos grossos com um daqueles anéis que os bacharéis usavam antigamente. Então ele fala:
_ É uma teoria?
            Não me contento de felicidade e nasce um sorriso autônomo em minha boca.
_ Sim, econômica, baseada em Marx, mas antes que você pense que sou marxista...
            Ele me interrompe.
_ Não estou interessado em mesquinharia.
            Me bate a decepção o que me faz ficar cabisbaixo, mas eis que o velho se manifesta.
_ Continue, quero saber da máquina.
_ Marx sabia de sua limitação como frontman revolucionário, então Engels, seu grande patrocinador, também era uma espécie de consultor de imagem, tipo um assessor, sabe? Então, certa vez, numa sinuca de bico de suas teorias econômicas, eles resolveram criar um opositor, que nada mais era que o próprio Marx. Com este opositor eles continuariam logrando da fama baseados na distorção da realidade fazendo valer certas místicas fundadas na representação icônica do próprio teórico...
(silêncio)
_ Tá, a máquina – continuo -. Baseado nisso resolvo eu me transportar à inteligência artificial de minha própria existência como ser tautológico de certas castas, pra prolongar meu estado de realidade no outro “eu” parto à realidade das virtualidades da comunicação, isto pode ser através de um aplicativo, ou até mesmo um noticiário na TV, mas o que realmente me interessa, é que quando eu estiver no estado de semi-consciencia, naquele estado em que Freud diz que podemos alcançar as imagens apesar de elas serem independentes, sabe?
_ Isso, ...
(BOOM)
            Neste momento ocorre um estrondo lá fora, é uma batida na porta de metal, entram dois agentes da polícia especial, um cara branco, cabelo escuro e forte, e uma loira, forte, mas não masculinizada, e lá fora fica o outro agente interrogando umas prostitutas, e travestis e bêbados e mendigos e crianças e ele é negro e mais forte ainda que o Capitão América, mas é negro e não completamente americano do norte, apesar de bem afeiçoado, ele pode esconder algo.
            Um garçom do china que também é china - depois vim a saber que era primo do china do bar -, saiu correndo, pegou uma bicicleta na parte dos fundos do prédio e saiu pelo beco, nenhum agente percebeu, nem eu mesmo, nem o velho, que a essa hora pediu um quibe frito.

Diego Marcell

28/7/2014

9.1.16

Epifania errada


            Quinta-feira Thomas volta pra casa, Curitiba gelada no mês de julho, ele se sente sujo, são as caixas, Tom é Mc, é fã de punk rock e Fausto Fawcett, mas curte mesmo é cantar funk no underground, o problema é que o underground não quer ouvi-lo, então ele teve que pegar um subemprego no almoxarifado lá no Rebouças, ele mora na Travessa Presidente Faria, diz que é o ápice da cultura underground morar ali, principalmente pela vista, entre a estação Central e o Passeio Público.
            Thomas Gonçalves está cansado, não quer ler Cacaso nem Chacal, hoje não vai pros bares no São Francisco, nem vai beber o tannat uruguaio da promoção, só vai sentar em seu sofá rasgado e fumar um baseado ouvindo o escândalo vocalizado lá na rua, nem quer saber se é puta ou mãe de família, ta cansado, tão cansado que é incapaz de pôr um disco. Comer um pão francês com vina o fará sobreviver; e quanta infiltração – ele pensou -, mas ninguém o vizita muito sóbrio mesmo.
            Parece que as putas ou mães de família se calaram, parece que os chineses do apartamento ao lado se calaram, ele está chapado, parece que os carros pararam de passar, ele está cansado, cedo demais, ele queria comer bacon todos os dias, mas come vina, é mais barato e rende mais, o corredor é silencioso demais, muito silencio dói o ouvido, seu cérebro, ele gosta do silencio, mas este está demais, quantos mais não são, mas ele não quer dormir e um susto só em sua mente, um barulho em seu ouvido, alguém em suas costas, parece que deus resolveu aparecer, mas que deus meu deus?! Aquele de Abraão, Isaque e Jacó!? Mas ele não crê, prefere que seja de Jah sei lá, e que não o torture, é só pelas questões geográficas e poéticas de Jah. O que o impede de prosseguir é o imediatismo, oh deus, finalmente (só para inteirar o leitor, Thomas nasceu em família Metodista, mas se decepcionou com John Wesley e ficou só com o rock inglês mesmo), então deus diz que ele deve obedecer o chamado e se ligar institucionalmente a ele. Pronto! Não podia ser deus mesmo, maldito capeta!
            Sexta-feira, Tom não quis acordar cedo, nunca havia faltado em um ano de trabalho para finalmente aproveitar este dia, quando fosse necessário, uma sexta-feira pós-teofânica, nublada e concreta, deus já não existe, nem o pobre diabo, talvez uma semana criando histórias sob efeito da cannabis o leve a um terminal de ônibus que o indique a direção, mesmo que seja em direção ao improviso, agora Thomas Gonçalves é um sedutor, chamado Claudio, casado com a Beatriz da música do Chico Buarque e ele vai conquistar meninas adolescentes, mulheres com 20 anos de casamento perfeito e animais com seu sensor suprassensível, ele vai conquistar o mundo, mas só agora, até dormir.

Diego Marcell

25/7/2014 

5.10.15

Elipse


            Em meio ao caos da cidade entre guerras civis, um gordo vestido de homem-aranha se arrasta pelo chão até alcançar a porta de madeira de uma velha loja de quadrinhos, ele tenta abrir, mas ela está fechada e no vidro colado o aviso – fechado por tempo indeterminado __/__/1957.
            Damos um salto de tempo e o anão vestido com macacão bege fala com voz jovem enquanto se arrasta de costas pelo chão e com destreza se levanta escorando na parede, ele tem uma espécie de chapéu capacete e me manda comprar um aplicativo que irá me ajudar na “vida louca”, eu um tanto confuso não sabendo se saio deste misto de barbearia e boteco e pego carona no caminhão da moça que vende arquivos pirateados.
            Antes de toda essa história, um grupo de amigos havia me levado a uma antiga estação de trem abandonada que em época de cheia servia de reservatório onde as pessoas pagavam para se banhar, pois achavam que era medicinal; meus amigos diziam que eu estava precisando muito do tal banho.
            Lembro que a fila era enorme, eu na cara de pau entrei direto, disse que só ia dar uma olhada, acho que os porteiros não acreditaram mesmo que eu tava a fim de banhar-me, alguém foi comigo, quatro ficaram no fim da fila mesmo eu garantindo que não ia me misturar com aquela porquice.
            Quando entrei e dei de cara com aquele banhado, era como um quintal cheio de lama, uma espécie de charco, lembro de ter falado que aquilo nem era fundo, mas alguém dentro da água me garantiu que aquele pedacinho o cobria.
            Era um clima de fanatismo religioso, todos com risos delirantes, e eu o único mal humorado, apesar de irônico.
            Saí pelo canto, uma escada velha de metal, subi correndo cuidando para não tropeçar, outra escada, desta vez já dentro da antiga estação, chamei de longe o resto da turma, havia junto uma menina que não sei se a conheço apesar de me parecer tão familiar, branca, classe média, ruiva, cabelo bem curto, andrógina, minha esperança dela ser a única ali que não propagaria as ideias antiquadas do socialismo, que ela fosse a salvação que há no outro lado, no outro mundo, num mundo mais clean e menos místico, mais racional.
            Voltamos para admirar o charco numa espécie de cena bucólica do inferno, sentados próximos a escada enferrujada, não lembro das suas palavras, só lembro da naturalidade com que lambi sua orelha.

Diego Marcell

2014

27.10.13

Um conto liberal e nada conservador ou As conspirações de um órgão do ser


Dedicado a Nelson Rodrigues, Diogo Mainardi, Lobão e outros contemporâneos
Inspirado após a leitura do conto Misere, Domine de João Manuel Simões

_ E se essa vida não passar de uma teoria da conspiração metafísica?

            Assim pensava o ex-seminarista deitado no sofá de sua kitinete no centro da cidade, já faziam três anos que abandonara o seminário, um antes de se tornar teólogo, iria defender a predestinação em Santo Agostinho, agora, porém, já não sabia.
            Queria se dedicar aos romances e às prostitutas, já que crescera sob a pressão da extrema religiosidade católico-romana, o próprio bispo de Hipona já era uma reivindicação de tudo, mas estranhamente admirava mais o escritor das Confissões antes mesmo do maniqueísmo; pois enquanto o Jesus pré-adolescente ensinava os eruditos na sinagoga, o santo africano roubava laranjas, e isto sim era divertido, ou pelo menos fazia algum sentido, pensava ele.

_ Nunca saberemos por que tantos signos se apossam da linguagem e nos remetem sempre à infinidade do universo que deve esconder algum Deus, mas que provavelmente não vem nos visitar ou no mínimo usar aves como instituição celestial de mensagens. É fato que pode ter alguém brincando com nossa raça e só a nossa, já que os coelhos estão em paz (inclusive com relações aos ativismos animais que só pensam nos cães), mas também não penso que sejam estes Ufos tão concorridos, não seria tão óbvio assim, mas como o óbvio ulula na população, grande parte é atraída por estas bobagens, já a questão religiosa não chega a ser tão óbvia como pensam os ateus, pois nascemos nestes contextos culturais, o trabalho é nos desprendermos disto, nos limparmos, tomarmos a pílula que Orfeu nos oferece e adentrarmos nos bastidores da Matrix, assim como o índio nasceu ouvindo sobre Tupã (ou seja lá quem são seus deuses, no seminário e na escola pública nunca estudamos afundo estas questões territoriais) nós o fizemos com relação ao Cristo, não falo dos fundadores das seitas, isto está muito longe de nossas existências que seguem à contingente morte, seria outro tipo de suposição, essas que eles adoram investigar nestes canais de história e na revista Super (des)Interessante, futilidades para alimentar a minoridade intelectual da sociedade, se não fosse por Kant, por Nietzsche, por Pondé, haveriam de surgir outros, mas importante é conspiração por suposição, prefiro a conspiração silenciosa e cética que pinga na alma do individuo sobre estas conspirações impostas por comunas degenerados pelo poder, mesmo que ainda apenas em potência, prefiro o niilismo de teopossibilidade, já que o niilismo ateu torna tudo fácil de mais e covarde demais.

            Ele remoia essas ideias furtadas em seu escuro e empoeirado microapartamento e pensava que precisava de um som melhor para ouvir Ella Frizgerald com qualidade; nisto pensou que Adorno deveria se foder, com sua posição em relação à música, principalmente ao jazz, que restringisse a teoria ao cinema, já que ele nutria grande simpatia pela critica da Escola de Frankfurt, só não queria perder mais tempo, desta vez sobre as conspirações acadêmicas.
            No tempo da utopia morusiana do seminário era fã inconteste de Leonardo Boff, hoje ao vê-lo apoiar o partido dos trabalhadores sem nenhuma razão “cósmica”, passou a achá-lo só mais um, assim como sua candidata o decepcionava ao se juntar aos velhos socialistas da segunda divisão. Em meio ao tiroteio, bem menos transcendental, mas também não muito calvinista como exposta por Weber, se deparando aos restos de excrementos indígenas das esquinas (ou será de mendigos?), num misto de repulsa social e orgânica ele tomava consciência de sua pequenez diante dos fatos, mas ainda assim num refluxo socrático se via melhor que todos àqueles que emitiam opiniões chulas na tevê logo cedo; um país de empirismos que lapida seus ícones sobre a miscigenação de soteropolitanos sem soterologias, uma de suas matérias preferidas e mais divergentes dentro da teologia.

_ Descubro que minha natureza é má até como artista, aqui sou falho e a arte só vai importar daqui para frente, fora da caverna.

            E assim saiu em busca de animais, agora talvez os deixassem viver e só iria copiá-los, plagiá-los, mimésis como no Kung Fú, estes animais já não se encontrariam em seu estomago, a não ser por fome fisiológica, queria escorpiões, já que o acaso destinado lhe empurrava para longe de qualquer filiação Estatal, o grande demônio fantasiado de Abraxas, com ele não funcionou, lhe destinaram o profetismo às avessas, que é aquele que luta contra dois, ou seja, contra todos.   

_ Prefiro esperar Godot que esperar o amor!

            A frase que retumbava sua mente. Já tinha comprado o livro, mas ainda não havia lido, e aquilo lhe fazia fumar, não conhecia mais quem pudesse lhe vender um baseado, então fumava o velho cigarro careta aguardando quem seria o próximo que cruzaria seu caminho com noticias de lá.
            Ligou para o senhor Rouanet e a telefonista responsável pela recepção atendeu, então o ex-seminarista deixou a mensagem fulminante:

_ Não me enviem mais suas cartas místicas de carisma, pois não desenvolverei projetos para imbecis julgarem e protocolarem no nome dos canonizados da tropicalidade e seus filhos e devotos eternos que desde já foram entronizados no além e nos anais da cultura celestial.

Diego Marcell

25-10-13

8.10.13

Microconto da pseudoatriz baseado em fatos reais


            Dizia que era atriz, diretora de elenco e dramaturga, com um mês de experiência conseguiu as três formações. Como atriz numa videoaula sua parte ficou incompreensível, não respirava e não tinha pontuação, uma frase a mais e seria fatal, morreria no Vídeo Tape sem ar nos pulmões, seria uma morte bem tosca.
            Na direção de elenco ou casting (como ela mesma prefere por achar chique apesar de não entender a palavra) desempenhava com primor a falta de argumentos e recursos para tal, mas se valendo da autointitulação do cargo esbanjava arrogância pelos corredores da produtora.
            A parte de dramaturgia é a mais difícil de analisar, sendo que nunca se soube de um texto seu, inclusive a revelação deste cargo se deu de forma peculiar, durante uma aula de espanhol, quando perguntada sobre a escolha do curso, a resposta foi: “é que eu sou dramaturga e quero ampliar meus conhecimentos para escrever minhas peças.” Será que ela quer escrever para o mercado castelhano? Mas podemos sim fazer uma breve análise desta terceira função que exerce (e por incrível que pareça, ainda não a ultima), com a dificuldade que tem em ler um simples parágrafo escrito de forma jornalística, portanto nada rebuscado, vê-se que a concepção de qualquer forma literária emitida por ela deva se dar de forma semelhante.
            Ainda uma quarta função que prometeu exercer com segurança, pelo menos na hora de dizer que queria assumir o cargo, é a produção geral e produção executiva de curtas-metragens, mas será que ela sabe o que fazem os produtores gerais e executivos? Num marasmo imprescindível e uma debilidade comunicativa exacerbada ela inicia sua jornada a frente de um projeto complexo como se fosse uma brincadeira de casinha de menininhas de oito anos da classe C que emerge economicamente, mas jamais intelectualmente.
            Desculpem se extrapolei os limites de caracteres de um microconto, que eu não sei qual é, mas a quantidade de funções exercidas pela pessoa em questão foi a real responsável pelo possível crime de formato literário, que eu não sei se de fato existe, mas que tem como decorrente de qualquer condenação possível o Dalton Trevisan, que é o escritor da mesma cidade que a personagem deste texto.

Diego Marcell

17-04-13