18.5.18



Corredor escuro
A desgraça me acossa
Mais uma noite embriagado de insônia
Tormenta do instante ausente
Relembro o deus que me estagnou
O enlace que me sufocou
E cá estou
Na idade de um Cristo morto
A circular redundante
A chafurdar no fracasso
Num looping de morte em vida
Como a desperdiçar uma nascente em privada
Sou a carne velha refúgio dos parasitas
A reconhecer o erro depositado em mim
Por cosmogonia muda
Que me dilacera a alma
Com o cruel chicote da consciência
Cá estou no antagônico inferno de um gatha
Como simbolista desregrado
Sou o delírio da serpente alucinada no aquário
Como num mórbido personagem de Kafka
Tão exposto quanto ignorado
Serei busto de praça que ninguém saberá o nome
Em terra que jamais pisei

Diego Marcell
18/05/2018

14.5.18


Estou com um problema sério: não consigo dormir e depois não consigo acordar. Está cada vez mais difícil ver a luz do sol. Produzo e não termino. Barrado borrado inconstante. Sem energia. Cabeça vazia. Corpo pede e a mente não tem mais força. Preciso dormir mas não tenho porque dormir então levo cada momento. Às vezes desconcentro, às vezes perdido retorno. Às vezes inconstante choro, berro, gargalho. Mergulho me afogo no raso e volto. Sem praia nem concreto. O mato me ojeriza. A floresta nada causa, ela sofre.
Hoje decidi mais um plano de carreira, destino: teatro. Como? Não sei. Quer dizer, até sei, mas esse destino não pode mais ser rígido, diante do que vem ocorrendo eu aprendi, destino rígido não dá. Mas é preciso um bom banheiro e um bom colchão. Um fogão. É preciso dinheiro pro gás.
Perambulo pela casa, em busca de alguma emoção. Provoco os passantes na rua, todos me ignoram. Provoco na internet, ignorado mais ainda. Sou escassez do que fui. Sou pó de existente, mas ainda percebo muito do que fazer.
Sinto falta de ler, Hesse, Kundera, Dostoiévski. E os filósofos nem me falem. Sinto falta das festas, dos porres e às vezes da maconha. Mas sinto ainda mais falta do jazz e do synthpop.
Quero filmar os roteiros com novas atrizes. Quero ser ator de outros diretores. Quero voltar a editar os muitos materiais que tenho e que nem estão comigo. Não tenho computador nem programa pra isso.
Afogado em fumaça de cigarro pirata. Embriagado de café. Escurece, meu almoço/janta. Minha janta. Madrugada em neblina me instiga, não há fantasmas, vozes de inexistentes. Começo a perceber a decadência do corpo. As dores por qualquer engano. Por qualquer movimento torto uma semana de dores. Desconforto interno, externo, músculo, respiração e olhos embaçados. Começo a perceber a decadência do corpo e ainda assim preciso lutar. Como será correr, jogar, pular? Pressão baixa, apago, volto, nada sei da vida e da morte, posso apenas sumir e deixar de dizer ladainhas.
Como um forasteiro ando fazendo muita merda. Em um mês já fui agredido, tentaram arrancar coisas de minhas mãos, já separei brigas e me envolvi com a polícia. Mesmo não fazendo nada além do que costumo fazer sendo o que sou simplesmente. Apenas existir pode ser ao outro motivo de conflito, afronta, geração de desconforto e estopim de fragilidade.
Tenho tinta e não tenho tela.
Posso apenas ir, ser efêmero, pra que tanta tragédia? Transformaram os ditirambos em estátuas, desde então a festa é barrada por leis. As leis servem aos fracos, e eis que a humanidade taxou a decadência como um direito à vida, agora a vida está decadente porque o fraco reina num trono erguido por covardes.
Eu sou uma partícula de vida que flutua onde já não se vive sem aparelho e eu me recuso a vestir a máscara.

Diego Marcell
06/05/2018
/pequenos relatos