7.6.19

FORMAS PÓS-CONCRETAS

A liberdade de apresentar formas livres, apesar de sustentadas pela idéia geométrica, e criar composições inéditas baseadas no juízo visual pessoal de acordo com a disposição de cores e linhas é o campo que me abre a esta série; a experiência expressionista permanece, apesar de ser disfarçada por um concretismo fake, por isso designo-o de pós.
            É difícil pensar como acontece a forma ou a configuração do quadro, mas da mesma maneira que há fundamentalmente a experiência do enquadramento regendo uma totalidade, a coisa se constrói no momento contingente da primeira ação e sucessivamente até encontrar uma unidade.
Mais difícil foi ainda pensar que tipo de pintura me influenciava neste momento e percebi que se tratava mais de um movimento da experiência proporcionada pela forma através dos demais elementos (tinta, carvão, pincel) com a simples contemplação de experiências estéticas amalgamadas, como concretismo, mas totalmente diluído no movimento livre. Como arquitetura moderna. Depois percebi que raras vezes a forma circular não se apresentou, mas além deste fator, algumas linhas que se repetem transversalmente de diferentes maneiras.
            Percebo também minha relação com o turquesa, sempre surgido nas misturas como que necessária; lembro de ter – em meados dos anos 90 – pedido o piso emborrachado do meu quarto de algo aproximado ao que chamávamos de “verde água”; depois reencontro fortemente no vaporwave, de onde talvez reforce a ideia de sua presença estar relacionada a infância, as questões estéticas desta época, desde o final dos anos 1980.  

Diego Marcell
28/02/2019



6.6.19

Bar sem esperança: Sobre literatura

Cena 1
H1 sentado com livro do Hemingway, M chega fumando.
M – Hemingway é conhecido pelo menor conto do mundo.
H1 – Quando? Antigamente né? Duvido que seja menor que do Dalton Trevisan.
M – cita o conto
H1 – Mas que bosta. Vou fazer um conto menor então: “Caguei-me.”
M – Qualquer ação pode se tornar um conto. Esta necessidade que as pessoas têm de valorizar futilidades.
 Cena 2
H2 na mesa, chega H1 fumando.
H1 – Como se sente hoje?
H2 – Hoje ainda não sei, só sei como me sentia ontem.
H1 – E como se sentia ontem?
H2 – Ontem como um personagem de Tchekhov, antes de ontem como personagem do Mutarelli, mas eu queria mesmo me sentir como um personagem do Herman Hesse.
Chega M.
M – Meninos como estão os desejos de vocês?
H2 – Quanto ao nazismo?
H1 – Ao comunismo?
M – Quanto falta para vocês chegarem até mim?
H1 – A anarquia.
H2 – A anarquia leva muito tempo.
M – Não podemos fazê-la assim? (estala os dedos)
Cena 3
H1 para M – Não se fuma mais nos cafés parisienses?
H2 para M – Sartre e Simone de Beuvoir pararam de fumar assim que pararam de escrever?
Ela tira um cigarro para cada um.
Cena 4
H2 – Karam falando sobre o quarto vermelho do hospital.
H1 – Kundera falando sobre a concepção da merda na teologia.
M – Elena Kolody falando sobre clones.
H2 – Leminski falando latim.
H1 – E japonês.
M – Vamos ligar pro Bortoloto?
H1 – E pedimos pro Arrigo fazer a trilha.
H2 – Ei péra aí, vocês estão mudando o foco.
Cena 5
H1 – Nos falaram muito de Moby Dick e outras tantas histórias do mar, mas a única que li foi a de Jonas e nada me parece mais interessante que parar na frente do mar e olhá-lo e não pensar.
M – Pense na lição de Jonas.
H2 – E toda cultura sapiencial do oriente.
H1 – Eu penso apenas em não pensar, em deixar o mar pensar por mim.
M – Uma vez eu caminhava pela areia, a praia deserta e gelada num inverno, eu carregava vários livros de poetas como Neruda, Lorca, Cruz e Sousa... (ela levanta e sai da mesa)
H2 – O Brasil está ficando sem graça.
H1 – Os norte americanos estão deixando o Brasil sem graça, assim como tudo que eles fazem, tudo que eles tocam.
H2 – São as traduções.

Diego Marcell


Bar sem esperança: Sobre teses

M – O meu processo é no computador.
H1 – O meu é numa mesa velha cheia de papeis velhos e livros velhos espalhados, alguns por baixo de mim, dicionários (começa a divagar falando para o horizonte, a mulher já não olha para ele, mas para alguém que vem), enciclopédias, léxicos, livros técnicos, de termos, hermenêuticos, panoramas, semióticos, filologias, notas... (continua olhando para o horizonte).
H2 senta
M para H2 – Por que quando estamos a sós você não conversa?
H2 – Eu não gosto de conversas com uma só pessoa, é preciso no mínimo três para que haja cúmplices, e para que as historias se acumulem para estes momentos.
H1 – Alguns se reúnem só para falar futilidades nas ruas, no bares.
H2 – Mas é disso que a vida é feita.
M – De futilidades?
H2 – Não... de sair e falar futilidades nas ruas, nos bares.
M – Você mesmo não suporta pessoas fúteis.
H2 – Não estou falando de pessoas fúteis, mas de pessoas que falam futilidades, isto é bem diferente.
M – Qual a diferença?
H1 – Pessoas fúteis não pertencem ao “cogito, ergo, sum”, quem “pense, donc il est” tem na fala fútil muitos motivos e citações para uma noite de teses.
Cada um tira o seu próprio cigarro e ascende.
H2 – Somos uma geração burra de contemporâneos espertos.
M – Passar a noite ouvindo bandas gaúchas dos anos 80 e saber todas as músicas e cantar todas as músicas como se fossem representações exatas disso mesmo que estamos fazendo.
H2 e M para H1 – É isso sua tese?
H1 – A minha tese é sobre a importância do intelectual em transformar a filosofia no verbo do eterno retorno para a ausência do ente in progress fron a utopia do vácuo.
M – Mas isto vai contra meus valores kantianos.
H2 – Tenho certeza que ele também fazia isto quando visitava as tabernas antes de se tornar um filósofo da hipócrita modernidade.
M – Passar a noite falando mal dos outros intelectuais?
H1 – Este é o erro epistemológico que eu coloco como centro definidor na tese, de como o termo cai facilmente para este lado.
H2 – Não se trata de falar mal por falar, mas de explorar os desvios de valores alheios sob o efeito do álcool e da noite.
M para H2 – Mas você inicia isso falando também do Estado.
H2 – Mas o Leviatã contemporâneo é muito maior, mais gordo, ele come fast food.
H1 – Então só resta falar dos nossos semelhantes, os intelectuais, ou, corrigindo, os pseudo-intelectuais, porque os pseudo são melhores que os de verdade, pois eles possuem capacidades que não temos, como a capacidade de se associar.
M – Ao governo?
H1 – Não, a outros pseudos.

Diego Marcell