14.8.18

Sozinho na estação
A palavra rude dos idiotas ecoa do alto falante
É um cego que te dá a direção
E um surdo que anota os pedidos
Uma anomalia carimba sua testa
“Sim senhor” é a chave mestra
Uma varinha é o que distingue o professor de uma pedra

Sozinho na estação
Não sei a hora do trem
Nem o que tem além da montanha
Ainda carrego as cinzas dos meus mortos
Preciso da correnteza do rio para jogá-los
Sou um pântano, um lago de lodo
Querendo ser mar

Sozinho na estação
O bilheteiro burocrático quer minha alma
Quer tirar do um sua propriedade
Inventaram a palavra amor
De brinde a palavra carinho
A moeda falsa no tabuleiro dos doentes
Na jogatina da decadência
Tiros a queima roupa em cama dividida

Quando encontro um crente
Só almejo a companhia dos pássaros
Quando encontro um sábio
Só almejo a companhia dos cães

Diego Marcell

13/08/18

7.8.18

Com o cair da noite eu sofro
Um vampiro sem taberna
Agora sou alma que vaga no limbo
Um ator sem platéia
Que já não sabe se ensaia ou vive
Se agradece ou morre

Perspicaz arauto no bastião
Ao arrebanhar casa de doce
Em batalha pessoal
Kamikaze lírico
Do poço vazio
Capturador de espasmos
Ou joguete do acaso?

Diego Marcell

04/07/18

5.8.18

            Fico pensando quanta coisa de errado a gente faz na vida até encontrar algum grau de autonomia. Por mau direcionamento paterno e da sociedade; quantos encontros prejudiciais temos que suportar até aprendermos a escolher as pessoas boas pra nós. Quanto disso demora pra limparmos do nosso corpo até não nos prejudicarem mais. O quanto andamos pra trás e para os lados pelas más companhias. Pelos falsos enredos da sensibilidade infante no ser. O quanto disso nos prende e nos força um sofrimento desnecessário, simplesmente porque acreditamos e assim depositamos nossa parte nas relações.
            E depois o quanto sua autonomia fere uma sociedade doente a ponto dos mais próximos que a natureza te causou te serem ainda as maiores barreiras para uma mente que só almeja a liberdade para se encontrar e assim encontrar algum deus de verdade. Vejo assim o sentido da frase de Cioran quando diz que “nossos íntimos são os piores inimigos de nossa estátua”, pois há o contato tácito da natureza que os faz imaginar certos poderes sobre este outro que quer ser ele mesmo desprendido dos valores da tradição, e se “homem algum chegou a ser completamente ele mesmo, mas todos aspiram a sê-lo” (Hesse), “alguém só é ele mesmo a partir do momento em que o é entre os outros” (Kundera) e que exercício de existência para chegar a este momento maravilhoso que aparenta loucura para a sociedade doente, por isso tantos quando idosos são chamados incompetentes para esta sociedade, já que “apenas com a idade o homem pode ignorar a opinião do rebanho, a opinião do público e do futuro” (Kundera), o paroxismo da vida que esvai tira o peso dessas idiotices humanas, mantidas por poder, vaidade, honra? O mesmo Kundera diz que “a honra é nada mais que a fome da sua vaidade. A honra é uma ilusão de espelhos, a honra não passa de um espetáculo para este público insignificante que amanhã não estará mais aqui!”
            Com isso só penso que toda nossa loucura do despojamento dos valores é a prova que a real loucura está na manutenção dos mesmos. A burocrática loucura de pertencer a uma forma dada por um poder antigo que sobrepujou ideologicamente uns idiotas para que se mantivesse eterna.

Diego Marcell

03/07/18