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3.2.20

            Tem dias que você morre, que tudo dá errado em maior nível, que a esperança só se for um veneno, que toda tentativa de pensar “certo” não passou de uma prisão aceita, condicionada que de repente você percebe, você vê a ferrugem na grade.
            Tem dias que você desanima, que perde as forças (que já não são muitas), que mesmo aceitando o erro traçado não vê expectativa em si, não acha mais bonito sofrer, não vê qualquer razão na mediocridade, motivo para estar consciente já que é obrigado a ver certas pessoas e ouvir certas músicas e discursos que não valem o excremento da sua insignificância.
            Como é difícil ser Diógenes e jogar fora até o prato de esmolas, se contentar consigo se já não se pode ser quem se é, se pra atirar em Deus não basta uma funda, mas é preciso recorrer a um sistema que te anula.
            No fim, no fundo do poço, aqueles que estão em cima ainda exigem adulação para cessarem a cusparada, querem ser louvados sem merecer por quem é pisoteado sem necessidade. Eis o pão que o diabo amassou, a receita de um Deus de mau humor, se não há justiça para a carne, a alma não tem onde repousar a cabeça e textos de redes sociais continuam a ser uma bobagem que não enche barriga.

Diego Marcell

25/09/19

2.2.20

            Você vê minhas olheiras? Eu venho de um lugar árido, árido de idéias. Eu sempre estive sozinho nessa, e até aqueles que salvei me traíram ou abandonaram. Então eu sempre estive só; meu erro era não ter percebido isso, eu ainda acreditava na sincronia dos passos, na assertividade da sonoridade das palavras, por isso me atrasei, por achar que carregar alguém 1 km, me carregariam também. Até hoje não vi a tal retribuição do universo, por isso já não acredito em nada, por isso não obedeço as leis, não posso obedecer o que não existe de fato e só o que existe de fato sou eu, não o que as pessoas vêem de fora, mas o que eu sinto de dentro.
            Eu nunca quis ser poeta, eu nunca quis ser artista. Eu só não entendo porque as pessoas julgam tanto alguém que elas ajudaram a destruir, a criar, o monstro que elas ajudaram a criar, a construir. Eu nunca quis ser esse monstro, mas agora é impossível deixar de sê-lo. Imunidade adquirida do contrato, essa nuvem de poeira tóxica não me destruiu, ou me consumiu, como queira, mas me forjou, hoje eu sou antídoto.
            Eu sinto fome, minha cama é desconfortável, a moto que passa, o cachorro que late, a música que toca, a conversa ali, tudo me irrita, mas isso não quer dizer nada as cinco da manhã num mundo que arde nas chamas da ignorância percorrida e propagada pelas veias da sociedade. Sociedade? Quem tem parte com quem? Sociedade também poderia se chamar burocracia.
            Minha lareira estará flamejante para consumir com o lixo dos papeis enquanto bebo um cabernet. A escola, a família, a religião; você pensa que se elas te deram moral e ideologia fizeram algo bom ao mundo, a mim, a você? Nenhuma boa intenção feita sob estes valores e signos são dignos de respeito. Queimem todas as assinaturas, os contratos, os tratados e as teses, tudo que esteja de baixo da hipocrisia da fé, esta condição da nossa espécie de sobreviver pela destruição e de construir totem pela destruição da liberdade; mas eu estou com Nietzsche pela destruição da moral do homem instituído para a construção de uma nova aurora.

Diego Marcell

9/2019
            Qual o pior adjetivo que você deve me dar? Quero apenas ter todo conhecimento para gastá-lo na piscina. Meus amigos, a cerveja está gelada. Eu matei este animal (de outro gênero), irei devorá-lo com limão, cebola e sal. Não quero que me ames como o romantismo quis, não quero que mude nada por mim, não faça nada por mim, não vá pensando que sou seu. Mas eu te quero sim, não se apaixone, apenas se divirta, cite poemas, projete filmes, Bergman, Agnes Varda, Glauber. Me conte o que achou dos clássicos da literatura. O budismo ainda é minha arma. Nietzsche, pinot noir, neon.
            Vi que os animais da nossa espécie são de fato ridículos, um animal ridículo; nada se compara com os religiosos, aos dependentes do mito, eita animal sentimental que se apega facilmente a qualquer inutilidade que lhe seja útil. Eu me apego as utilidades das inutilidades para me fazer também inútil na artificialidade da realidade criada, no paraíso artificial que manufaturamos com nossos cérebros gigantes.
            Espero ver as abduções (ou arrebatamentos) como um espetáculo global, melhor que a tech art. Ser um escolhido não cabe a mim, eu apenas sou. Gosto da arte do desempenho por isso, emite valores. Quantos morreram por esta existência, para demonstrar o valor primordial do inútil quando este não deseja poder.
            Eu sou um índio, alemão, português, árabe, negro de olho verde, meu gene neandertal não foi para meu físico, não resisto muito ao frio.
            Os deuses devem ter culpa no cartório metafísico. Mas eu sou anarquista, não assino contratos em branco.
            Você já pensou em dançar no meio da guerra? Enquanto eles rangem os dentes, você sorri. Enquanto eles grunhem você faz piadas. Eles são o alvo da piada, porque eles são a piada.
            Você já se conscientizou do valor da interpretação? Nesse ponto sou pós-moderno com Derrida, nosso Homo cyber não pode emitir os mesmos moralismos de outrora. Mas a aurora pode ser perigosa, já que AI e algoritmos são patrocinados, se o Estado cair, com sua moral múltipla de âmbito global, com o mercado e suas marcas galácticas já não tenho tanta certeza. (Eu deveria citar famílias galácticas?).
            Se uma maquina comer uma maça envenenada na sua frente, e esta maquina for o totem bode, ou uma pedra na ilha de Páscoa, você ascende uma vela e ainda assim mata a cobra porque o veneno – a seu ver – mesmo que remédio, não cura um gay como Turing!? Eis uma pergunta que Bolsonaro não saberia responder, que Lula xingaria um palavrão e que Dilma com certeza usaria para uma resposta mirabolante e sem sentido. Mas talvez Obama saiba, e ainda assim finja que não.
            “Não existe lugar seguro” eu respondi quando precisávamos fugir das câmeras e falar baixo sem celulares. Não há segredos imunes ao lado mau de deus. Os templos estão vazios, os mercados cheios, os bancos bloqueiam a ilusão que você chama de espírito. Se acabar a luz elétrica só os vampiros cantarão.
            Não haverá reverso tangível na tragédia, eis uma tragédia com estética peculiar a nossa, uma estética definitivamente sem ética, flamingos e unicórnios de plástico voando guiados pelo olho que tudo vê e nada sente a metralhar descendentes esquecidos num acaso imperialista. O destino não estava a favor desses; uns diriam karma, outros apenas justa conseqüência; eu só digo ser um espetáculo muito triste de streaming.
            Quero ver as roupas desse Deus ex-machina, no centro de Jerusalém, tomado de elemento 115, quero ouvir a sabedoria de Salomão, ver se o modelo de Elias é Ford ou Fiat, porque Wolksvagem sei que não é.

Diego Marcell
2019

            A vida toda fui inocente, fui casto, fui santo; obedeci fielmente todo mandamento. Filho da ignorância dediquei a ela minha sabedoria. E só me fudi! Agora entendo o que eles queriam, mais um igual no clã passivo, irreflexivo a conduzir uma tradição de mesmice e injustiça. Vejo quais foram suas armas a me tirar toda energia em meu ápice vital, a tirar o aprimoramento intelectual ainda na fresca juventude.
            Mas agora, no fundo do poço, aprisionado por um passado de imersão de valores distorcidos. Agora que a ilusão se materializa como paredes grossas a minha volta, já não serei santo, a inocência apodreceu como o totem de madeira barata que me fizeram adorar. E agora nada mais é considerado por aqueles que me puseram aqui, tornei-me o inimigo publico de todos que tem um ideal na cabeça. Eu sou a ameaça constante de tudo aquilo que eles esconderam por medo de assumir.
            Nada mais tenho a perder, não tenho bens, não tenho ninguém, vago numa bolha prisional imputada lentamente, enredada lentamente nos meus tempos de juventude, então já não tenho medo, nada me resta a não ser a integridade que criei, nada me resta a não ser uma verdade que não se referencia nas paredes, portanto como peixe no aquário, como o estranho no ninho farei questão de ser. Sem medo da vida e da morte serei o antagonista, o vírus, o veneno, a podridão, o pecado, o terror e o diabo; já que nem se eu salvasse a cidade, como Geni, ou as almas, como Cristo, adiantaria, eu serei sempre condenado como Sócrates por corromper a juventude.
            Mas algo que jamais abrirei mão é a justiça, pois esta habita minha natureza e, portanto, todo aquele que me acusar do contrário, desde já conclamo: eis um mentiroso!
            Se não posso ter minha liberdade pelas vias naturais que deveriam ser postas, serei o pior prisioneiro, daqueles a causar as piores rebeliões, a queimar colchões, à tornar refém o carcereiro.
            Se assinei contratos em branco atormentarei o contratante até este perceber o mal que fez, o farei se arrepender do erro que cometeu.

Diego Marcell

03/08/2019 

23.1.20


            Agora quando fumo tendo a pensar de forma conservadora, pela sua visão, algo que “monto” me leva a pensamentos de uma conscientização carregada desses valores de interpretação (certa sociedade de outro tempo).
            Tirei um Dostoiévski da estante, acabo lendo mais ensaios que literatura, será que lerei O jogador agora? Deixei ele sobre os cadernos e saí.
            Por incrível que pareça, apesar de em dois dias estar cercado de boas ideias de conservadores, eu não sou nada conservador, mas algumas estruturas dos pensamentos de alguns filósofos me são compreensíveis; porém este conservadorismo é completamente diferente do dito no inicio, aquele pertence ao senso comum da minha tradição, esta inclusive questionada pelos filósofos conservadores, e é aqui que discordarei deles, ao menos no presente.
            Três pessoas me falaram de seus casamentos, todas elas afirmaram não desejarem repetir tal fenômeno, de fato, não sou conservador a ponto de pensar em casar mais de uma vez. Uma das pessoas falou dO jogador, será um presságio?
            Um homem homo, ou homem hetero, uma mulher que não conheço, todos passados dos 40, talvez ela dos 55. Será um prenúncio? Uma dica? Estou sem palavras. Estou apenas sentindo. Acabo de sair de um estudo sobre Sade, até que ponto seu homem natural tem influencia sobre o que não sei de Nietzsche, e suas estruturas? Pouco importa, sou rizomático!
            Quanto aos momentos atuais de fumante e seus fenômenos mentais de conservadorismo é que me sinto submisso e aí passo a ser altruísta (e eu odeio isso?).
            Sobre a citação referente as relações MILF como encaixar no contexto sem levar em conta os outros negócios de família? As pessoas tem dificuldade de entender as abstrações ocidentais gregas, nossa mistura talvez tenha degenerado nossa capacidade de apenas viajar. Desde que saibamos usar uma roupa para cada ocasião. Me vem agora a figura de uma galocha.
            “Meu inconsciente está cheio de lixo”, só isso eu pensava após o ápice do efeito, mas se o lixo não vai sair, por que insistir? Talvez vá escoando pela orelha.
            As mulheres não entendem a lógica do relacionamento, ela jamais entenderá. A cabeça de um homem. Quanto a cabeça delas não é meu interesse. Porém, contudo, eu estive, estou, imerso como naquele filme Crupie: a vida em jogo, chego na editora e digo: eu sei que tem gente que vai chegar e dizer que é isso e por isso vão vender pra caralho, mas eu digo que o livro é foda e vai vender pra caralho se vocês trabalharem.

            No fundo de toda essa história desses movimentos afirmativos criados por grupos com ideias fabricadas por ideologias maiores que os utilizam para subgrupos de dominação de cadeia heterônoma quando assumidos por todas fará com que aquelas que se deixam levar pela ganância – apesar do tesão – fiquem sós, e elas odeiam essa história de ficarem sós, porém é isso que vai acabar sendo, ao substituir a moral machista por uma moral de “ponto de vista” sentimental não terão onde canalizar toda essa energia e daqui três anos vão estar todas surtando com combos de antidepressivos, não porque querem, é porque a propaganda é boa, mas nem as mulheres deveriam crer no que sentem, o sentimento neste caso passa a ser um instinto que subjuga a razão pelos meios racionais, sendo isso apresentado por aquelas que tem rancor e por isso militam, como verdade, mas isso tudo é muito arcaico pra ainda darmos relevância neste momento.

Diego Marcell
15/12/16

24.10.19

A vida tem sido agridoce. A transformação estática que assusta. Incubadora da guerra. Controlar a ansiedade entre o amor e o ódio. A espera. O processo. Nada, tudo, tão juntos. Concentro, entendo o que penso. Mas por que continuo instável? O vício é momento de saída. Porém sigo vítima da natureza. Vazio e frio como o estado que brotei. Me dão pinheiros sonho palmeiras. Não reconheço ninguém nas prateleiras. Latino sangue que em minha garganta sinto. Morrem pais morrem filhos. Lamento de posse amor inaudito. Nunca conheci o prazer e a leveza dos vinhos. Toalhas na relva. E serestas. Hoje já não possuo nem emprego nem utopia. Computadores me cobram o que nunca desfrutei. Conhecimento. A natureza não dá o que a cópia nos tira. Senhor das moscas em cada cabeça. Deuses do sanatório devir. Caminhei entre memórias cinematográficas. E acabei como o bandido. A cara no poste o nome no spc. Mesmo que sejam os ricos a roubar pobres. O fazem na lei. Mesmo que sejam padres e pastores os estupradores. É pelo conceito da negação que o fiél absolve o diabo no julgamento final. Deus acima de tudo disse a mãe que mata o filho o pai que mata o filho. Cristãos são Lúcifer que ao imitar a imanência barram a vida até a vinda de Cristo. Mas tudo isso é papo furado quando seu joelho dói e não podes andar. Coachings brincando de novo. Meninas poses repetidas no Instagram. A contemporaneidade me enfada. Meu corpo cansado não entende motivos. Leveza e diversão é meu mantra. Mas como é difícil focar. Silencio e não durmo. Conheço pessoas que não posso convidar para churrascos na laje. Porque não há laje.

21/10/2019

29.5.19

            Eu olho lá fora não vejo nada, preciso simular algum crime. Ouça a madrugada e seja minha companhia. Mais um trago. Em lugares que foram demolidos. Em altares para etéreos seres desaparecidos.
            Veja, minhas mãos já não tremem. Meus olhos não enxergam. Eu sou a mesma frase esquecida e repetida incansavelmente pela terceira vida.
            Apartamentos vendidos. Desocupados. Mendigos mortos são sempre substituídos.
            Seja minha companhia. Alivie meu angustiante marasmo com alguma beleza emprestada. Alguma mentira útil. Alguma máscara. Assim são os literatos.
            Vivendo outra vez. Outro jogo reiniciado. Repetindo cortinas, que agora possuem mais pó.
            Eu me aproximo do circo, mas a lona desce cada vez mais. Não quero cair, mas às vezes no impulso penso em me jogar.
            Se belo não está bom, se para pior, se continuo não tenho condição de pensar.
            Você morreu, ela morreu, não precisava ser assim. Era necessário, já que demoliram aquele belo prédio da rua 13.

Diego Marcell
28/05/19

            Que sensação estranha, que me abate, que mistura, que conversão assustadora, quão blasé sou recebido, e quantas boas notícias me chegam.
            Sensação desconfortável, eu nada mais esperava de bom e isso me deixou assim, não sei se abatido, triste, melancólico acho que seria a palavra.
            Como eu amo as pessoas que me estão blasé, ainda assim entendo o que posso ter-lhes causado. Mas a dor é cura e se não fosse minha guerra o marasmo ainda reinaria e todos estaríamos doentes.
            Todos saem feridos, mas mais fortes, mais sábios, mais livres. Todos saem machucados, mas verão que isso lhes foi a cura. Também a minha. A minha dor em tratado de paz, a dor melancólica é a do amor, a dor do ódio tem suas maneiras cegas de seguir; já a dor melancólica do amor vaga sem pouso e sem remédio não se sabe seu tempo e não se a compreende.
            A memória incontrolável chama neste pássaro melancólico que não sabe em que galho pousar.
            Quanto de meu perdão gostaria que se materializasse em sensação neles. Mas isto já é utopia.

Diego Marcell
25/04/19
            Você acorda tarde! Mas eu não consigo dormir, ainda mais depois do que me fizeram. Eu preciso expurgar tudo. Expressar a ultima gota de reflexão da minha mente.
            A vida toda fui fantoche do meu pai, agora ele me acusa de me achar mais esperto. A verdade é que ele sabe e se recente disso. Mas só acontece porque uma hora a pessoa tem que se impor, chega de ser tratado como lixo. Como animal de abate.
            A questão é só o respeito. Se houvesse respeitado minhas escolhas. Mas sempre foi promessinha daqui, promessinha dali, exemplo do pai dele, mas nunca cumpriu nada. Entrou em contradição e fugiu pela mesma tangente.
            Ele admitiu um único erro, de não ter me cobrado mais. Sendo que a única coisa que fez a vida toda foi me cobrar. Nunca me proporcionou nada, nunca me deu um empurrão naquilo que sou, porque nunca reconheceu uma verdade fora da sua realidade.
            O problema é que as pessoas não reconhecem que o espírito de cada um é incompatível a aceitação de certas normas de comportamento, isso se chama empatia, algo impossível de ser experimentado, e portanto, entendido pelo meu pai.
            Ele não consegue me enxergar deprimido enforcado pela burocracia. Ele tem medo do ócio criativo, a liberdade mental é uma arma perigosa.

Diego Marcell

23/04/19
            Nunca imaginei que minha mãe fosse uma pessoa tão baixa, dessas que joga sujo com o filho porque foi ferida. Mesmo depois do perdão, a arrogância exalou. Mesmo depois de toda a história, o ódio se fez maior. Mesmo depois dos argumentos mais coerentes, só o absurdo infundado foi expresso.
            Ela juntou todos os boatos que ouviu fez uma verdade acabada e declamou aos quatro ventos, que baseado numa soberba – dela não herdada, diga-se de passagem – que eu era o pior ser do mundo e jamais mudaria.
            Escondida atrás da religião, pagando a mensalidade da sua salvação, nunca vi nela o perdão de Cristo, nunca vi o altruísmo, nunca vi o bem gratuito. Mas a vi mandar muitos ao inferno pela fé distinta; vi xingar o que lhe desagradou e ter preconceitos com as diferenças.
            Ironizou que eu ficava no quarto com “meu” Buda, mas ao contrário dela que se esconde atrás de Jesus eu tento caminhar com Buda, com Jesus, com qualquer coisa que me melhore. Eu quero a verdade e não comprar uma verdade que me sacie.
            Enfrentar o medo, não aceitar a fraqueza. Mas a hipocrisia reina e devemos ser uns bostas porque os fracos assim o querem e tudo que nega a segurança da sua ilusão seja tomado à força e jogado no recôndito mais profundo da poderosa mente do homo sapiens, coberto ainda de um distúrbio agressivo que inclusive acusa de agressivo aquele que reage ou apenas tente defender-se, que dirá argumentar.

Diego Marcell

23/04/19
Ele me disse que para ser um bom filho eu deveria ser desprovido de sapiência. Que me daria incentivo na carreira se fosse a mesma que a sua.
Ela me disse que para ser um bom filho eu deveria ser desprovido de natureza. Que me daria todo amor do mundo se freqüentasse a sua igreja.

Diego Marcell
23/04/19


            Queria me interessar por alguém, alguém possível, alguém que ao menos gostasse de homem. Fazê-las gostar só de mim parece tão estranho, eu não sei lidar ainda, é muito trabalhoso, não faço nada, deve ser por isso que elas gostam de mim, porque faço o mínimo e transbordo num carinho.
            Eu não quero ter que chegar tão tarde à minha estréia no teatro a ponto de dizer “finalmente”. Por que foi tão difícil sendo tão fácil, sendo eu o rei do jogo? Estava vestido de plebeu, o rei encoberto a tatear por coroas que de fato nunca soube-se da existência.
            Aprender a falar é aprender a pensar, escrever é pensar, mas num ritmo submisso ao suporte que ajuda a performance, o problema é a vida com suas armadilhas incontroláveis.
            Sentado, segurando um artefato ciberpunk, num andar superior qualquer, um cubo branco de cortinas vermelhas, meio clube chinês, meio cabaré Voltaire, tentar acessar os segredos do I ching, enquanto a fumaça sobe pelas paredes, misturam conhaque no café, o vazio existencial de Renata Sorrah em Vale Tudo, sigo ingerindo dramim, paracetamol, ibuprofeno e cloridratos de fenilefrina, elas já não usam Chanel, cheiram a marcas caras que perderam o glamour, não beijam os lábios e não sabem chupar (e não sabem fazer um intelectual gozar). David Tudor no ar, temporal lá fora, a rua desaparece, as luzes explodem, a cidade derrete, gritos anônimos das anomalias hibridas da atualidade. Meu artefato falha, já não há verba para laboratórios universitários, os projetos espalhados pelo chão não revelam as imagens da minha cabeça.
            Os lideres em seu poder continuam a matar a sangue frio para proteger seus totens de mentira, mas os gráficos em expansão do cosmos virtual global é quem cala testemunhas, a mesma ignorância que cegava um pré-histórico possui um pós-histórico.
            Bêbado tendo ao egocentrismo, Dionísio desperta meu corpo, apaga minha mente das lógicas e me transfere à sua devoção pela alimentação da matéria sensível. Meu corpo quer corpos, minha mente à serviço de tal empreitada erra, tropeça no abismo, mas com força descomunal suga qualquer incerto para crateras escuras. Suga e sem aviso rompe também os muros alheios pela ação que ecoa ambientalmente.
            Apesar do trem e dos cães, é às 5 da manhã que se pode ouvir a noite, os pequenos sons dos gestos, da respiração, do pincel, da caneta.
            São novamente 5, contemplava o silencio dos pequenos sons quando irrompe latidos sinais de humanos suspeitos na rua. Foram alguns minutos, agora mais longe. Cheguei a ouvir a voz sem distinguir palavras.
            Eu refletia sobre o espaço-tempo, sobre a existência, sobre pornografia. Eu pensava e sentia, fumava na varanda, eram cinco da manhã, logo ônibus, cidade, segunda-feira.
            Foram dias de hiato na escrita, mas atenção ao som. A cada lento gesto, a cada amanhecer. A cada madrugada ouvir o fenômeno sonoro dos objetos afetados pela vida.
            Apesar de ir a mais um amanhecer (e acordar tarde, por conseqüência), já perdi a noção dos dias que vi surgir a luz, mesmo sem querer. Diminuí a dosagem dos remédios, mas alimentei a da cachaça. Ontem li o suficiente para me manter calmo e alegre para seguir, mas altero entre as várias telas, as várias ficções, enquanto não tenho saídas ao bar mais próximo. Sem amigos, cada dia é um dia. Com amigos cada dia é um dia.
            Penso em shows musicais, em striptease, penso em exposições de arte neon, mas quero é outra dose, outro beijo, outro algo. Ler o suficiente, mas a noite, a madrugada, me empurra, me leva longe. Posso citar colagens poéticas, posso improvisar, mas quero outra dose.
            Ouvir o sino da igreja me deprime, há fantasmas que em seu ilusionismo fazem a depressão tomar ares de paranóia, mas a verdade é que o cheiro da grama cortada logo cedo é que me deprime mais que tudo.
            Eu penso nelas, perco o sono, eu penso nelas, mas quem são elas? Penso nelas debaixo do neon azul, mas no neon azul não tem ninguém, a não ser sinais de que já vai amanhecer.
            Evidente que eu queria muito dormir, é um prazer dormir, mas imagens estáticas do passado não deixam. O olho dói, mas não há nada que eu possa fazer.
            A cabeça precisa parar de forçar ir além, ela precisa perceber o agora. A respiração que dita o que sente, o nada, tudo está aqui, o self/eu/mim, o espaço contínuo no tempo.
            O que os vampiros quereriam esta hora? Mas não, os nosferatus espantam as mini saias. Perco a noção do tempo. Sinto, penso; não compreendo.

Diego Marcell

Fev/2019

1.5.19

As pessoas acham que podem vir na minha cara, me destruir e saírem como seres iluminados.
Elas acham que podem me tachar de demônio e subir aos céus como luz.
Elas acham que podem me matar em nome do amor.
Elas acham que podem delimitar meu pensamento como se o todo fosse suas mentes calcificadas.
Elas acham que com palavras podem anular o amor que sinto só porque não os convém.
Elas acham que irão me salvar levando-me as profundezas do abismo e que irão me proteger, aprisionando-me.
Elas acham que podem ser juízes e santos. E que a ignorância é uma dádiva porque Deus é capitalista.
Comigo não! Eu sou mais que a sua hipocrisia, que a sua demência, que o seu ódio; e não darei um fio de cabelo por suas ilusões.

Diego Marcell

22/04/2019

24.4.19

A quase 300 dias neste buraco, comendo os vermes que saem do meu corpo, bebendo a chuva ácida, vejo o céu, vejo pássaros muito longe, grito, mas quem ouve não sabe de onde vem.

Me espanco pra me sentir vivo, pra me sentir menos só. Sangro pra variar a tonalidade dos dias, mas nada que faça minha cabeça parar de doer pela pressão deste ar pesado. Quem tem a corda diz que é curta. Um balde de confete não faz meu carnaval. 

Diego Marcell
Inicio de 2019

Pequenos relatos

12.11.18

            Aquele tempo era bom, mas eu sou melhor agora. Aquele setembro foi meu verão amante, hoje meu outono de solidão. Os quadros na parede, as drogas no estomago, as dores nas costas, a chuva lá fora. Duas cobertas, sofá, o olho pesa, talvez mais uma dose. O olho pesa o sono não vem. Superclose, minha miopia é a falta de foco do meu cinema marginal, não tem trilha que não seja incidental, performática, a trilha é o som da madrugada.
            Tevê que ilumina meu sonho, luzes apagadas na falta de alguém, nada há além do cenário, eu aguardo o fogo, o trem eu ouço, a caça não vejo, eu não toco violão.
            Não espero ninguém, não penso em ninguém, penso em todos, queria pensar em alguém, mas sou apenas a materialidade da sensação, a informação empírica do corpo. Quem lê? O que lê quem lê? Algumas fumaça, algumas pixel, algumas zero, algumas um, já não fazem neon boteco de esquina.
            Respiração pesada, ninguém acredita no que não vê (a não ser com muita propaganda), eu não sou publicitário, mas meu rosto pode ser de espião.
            A saúde do corpo não preocupa tanto quando a mente se põe a conflitar. Penso nos mendigos, nos voluntários, nos vira-latas e nas bestas; eu tenho duas cobertas e dores nas articulações.
            Escrever é um modo de me por no presente, me autocondicionar no agora, não ao publico ou à linguagem, mas a tentativa de equilibrar uma frágil bomba apoiada em mãos trêmulas.

Diego Marcell

17/09/18

27.8.18

Quando nos conhecemos jovens inconseqüentes, por que você não diz meu nome? Passamos torturas, ressacas, hoje você voa, asa delta, helicóptero, skate. Você era a pessoa mais doce, você sempre foi agridoce, você gosta de limão, mas precisei escrever esta carta. Você era o amante, melhor marido, da favela o samba, o teto de zinco, eu suava no verão, no quarto de visitas, Balneário Camboriú, eu suava, você suava, meu cu. Depois o luxo de Paris, o piano que nunca aprendi, você se perfumava, eu cheirava baunilha, cheirava Moschino. Você puro alho, carne crua, você comia, me comia, devorava. Banho de rio, você me tirou do mato, me levou pro mato, me ensinou a ler. Nunca me leu. Onde você esteve naquela terça-feira? Porque minha família sempre foi a barreira e você nunca ajudou, Londres seria uma boa, desculpa. Eu assisti futebol, o UFC, o basquete, o balé. Você se recusou a ver o Bergman, apesar de beleza da Liv Ullmann. Eu queria pôr-do-sol no parque, cachorro correndo, achocolatado, chá das cinco. Você um alcoólatra de laje, insensível, egocêntrico, nunca tratou mal um animal. Tanto amor e tanto sal na comida, você é insuportável. Amor jamais vou te largar, cuide com as escadas, os vãos, tudo foi em vão. Amor você era tão doce, quando estava drogado. Eu tão má contigo, drogada. Hoje vejo a verdade, Marx me salvou. Infelizmente não dá mais para ouvir você me chamando de social-democrata e indo embora quando eu ouvia Elis ou Amy. Que mania de Sex Pistols. Aquela camiseta que fiz pano de chão. Se jogo tuas coisas é pro teu bem, não da mais pra viver assim, me ignorando. Ignora minha força, não me ajuda em casa. Quero o divorcio. Desculpa amor, você é tudo pra mim. Eu preciso de um tempo, de espaço. Você nunca fica comigo, chega tarde, me sinto só, quero companhia, quero você na minha cama após o chá das cinco, você nunca ta lá, sempre com aqueles caras, aquela violência, você nunca fez mal a um animal. Você é um doce. Eu preciso de ajuda, você é um peso pra mim. Eu quero morar na praia, por que você não me levou na sua apresentação? Você sempre bebendo com suas amigas. São bonitas, são espertas. Marx me salvou, agora ficarei aqui, a casa é minha, preciso que se retire, saia e jogarei umas roupas pela janela. Você precisa entender, agora tenho novas amizades, são todos socialistas, eles tem casa própria, eu ainda aqui, você não fala nada? Nunca, sempre guardando, eu quero a verdade, mas não seja duro. Vou viajar, trazer uns amigos. Você pode dormir com o cachorro? A sobra do jantar eu joguei, junto com sua roupa velha, aquilo já tava rasgando. Você não pode mais vir aqui, mas você tem que voltar amanhã e cumprir suas obrigações. Minha advogada me instruiu a fazer um papel, preciso dele pra amanha de manhã. O Nietzsche leve logo, mas a coleção de arte é minha. Os discos depois você liga marcando pra escolher. Olha o jantar tava bom, obrigada por me por no seu vídeo, mas eu preciso me separar. Eu só queria um companheiro pra dormir, não consigo mais olhar pra você.

Assinado: Ela

Diego Marcell

23/07/18

29.7.18

            Eu sou o único entediado com a contemporaneidade? Com os jogos eletrônicos, com as imagens eletrônicas, com as terminologias de internet? Eu sou o único sem anseio pela novidade generalizada de atitudes sem conteúdo, de reprodução em massa? Eu sou o único sem tesão na última tecnologia? Eu sou o único que tem asco das legendas cheias de ambivalência hipócrita e psiquicamente mal resolvidas das redes sociais?
            Eu sou o único que não acha um problema não jogar o jogo? Eu sou o único que não julga a opção de não se jogar o jogo? Eu sou o único que não acredita que se deva aceitar as regras desse jogo?
            Eu sou o único a achar que o ouro é falso? Eu sou o único a sentir que a música é chata? Eu sou o único a pensar que o filme é idiota? Eu sou o único a perceber que a cultura vendida e absorvida é perda de tempo?
            Eu sou o único que não acredita nos amuletos? Eu sou o único que não inveja os líderes? Eu sou o único que não segue os mestres? Eu sou o único que não veste a marca? Eu sou o único que não chora o drama, que não ri o romance, que não festeja as datas paradas no tempo? Eu sou o único que não come a sobremesa, que não bebe ayahuasca e que não quer saber do Neymar? Eu sou o único pra quem 7 a 1 não significa nada?
            Eu sou o único que nunca votou no PT e jamais votaria no Bolsonaro?

Diego Marcell

05/06/18

24.7.18

            A trilha é Stravinsky, um pinscher de casaco azul calcinha me acompanha, não sei se combina, mas esta é a realidade e não um filme francês.
            Meu vinho é de baixa qualidade, o único tinto seco do mercado, custou dez dinheiros, tudo que eu tinha.
            O óleo está lá a mais de uma semana, mas vou usá-lo mesmo assim, pra jogar minha bisteca de porco. Uma banana. Pra acompanhar um tomate em inicio de decomposição.
            Aqui é um frio que ninguém imagina no Brasil; caminho por ruas desertas, pequenos prédios retos abandonados e uma fumaça de mato seco que queima não se sabe onde. Nem é muito noite à dentro, mas parece madrugada, eu caminho sem esperança num cenário de suspense norte americano. Aqui sempre foi filme B. Cidadãos desconfiados, janelas fechadas, fantasmas.
            As jovens ficam restritas a jovens playboys de camisa pólo branca que quando chegam a minha idade estão uns polentões de dois queixos, calvos, usando tênis de corrida e moletons. Mas o carro é do ano, apesar das músicas da adolescência no MP3.
            Então as raras mulheres que me importam são mais velhas, perdidas no mundo, rodeadas de xucros de meia idade que não sabem o que fazer. As solteiras, separadas e sem cultura estão interessadas em aventuras ultrapassadas com coleguinhas na mesma posição que não as levarão a lugar nenhum, a não ser em darem de cara com uma velhice anacrônica com as roupas no espelho.
            Vê-se aqui que a rotina os satisfazem, é o desejo do mesmo pedaço de carne e da mesma marca de cerveja pro fim de semana.
            As manifestações religiosas em praça escondem os mesmos pecados em massa, os pequenos poderes levados até onde dá.
            Caminho solitário na noite gelada e vago no apartamento vazio, não existe ninguém comigo, só lembranças de um futuro a ser fabricado, agora sem certeza, pausado.
            Espio na janela entre uma taça e outra, fico abismado com a falta de sensibilidade para ouvir música. Hoje só se é capaz de ter sensibilidade com a tal roda e o beat mais que acelerado, numa perda de noção que os faça atravessar numa única freqüência 9 horas de um culto ao vazio máximo da cultura humana.
            Sentir, sentir, sentir e abdicar da razão é exaltar um Dionísio de gesso, mas que eles não sabem que se chama Dionísio, justamente por ser de gesso. E é de gesso porque foi moldado por um tataraneto apolíneo que se perdeu de tanto tempo que passou imerso em blockbusters hollywoodianos.
            Chet Baker, Oiticica, Garrincha, Nietzsche, o que estes nomes tem em comum? Estão todos desempregados nesse sistema. Estão todos sem um puto, dando lucro a alguém sem qualquer talento.
            Foram os policiais da cultura que mataram a todos os grandes que morreram cedo.
            Entre as pedras e as gravatas, ondas e chamas, nade contra a corrente, contra toda corrente que pretende lhe segurar. Um artista é um corpo que se move, um criador é um espírito que se move. Não há um sem o outro.
            Ela não sabia nada do mundo dele, só aparências platônicas. Ele queria sentir, ela correspondia, mas o reflexo do autômato é como o ideal platônico.
            Não mude um fio de cabelo por mim se quiser fazer por mim. Bebo vinho relembro, sou tão absurdamente brasileiro, muito miscigenado pro santo ideal europeu.
            O que é o jazz, o samba, o rock senão um chamado ao espírito, a sagrada bunda que faz o quadradinho. Um terreiro de batuque sem a fantasia italiana da Sapucaí e nomes conhecidos, isso é a realidade, o que não se fala, o que sente.
            Chet voltou a si quando ela negou seu amor. Seu amor símbolo, anel devolvido. Chet voltou a si na baixeza ante os ideais da família e do estado policial, Chet agora está errado para os mortos que quiseram lhe matar. Chet está vivo.
 
Diego Marcell
22/05/18

22.7.18

Um dia eu sai pela noite, boêmio, muita gente conhecida vinha, mas eu não queria rostos repetidos, eu tava bêbado, chapado ou em transe, não sei bem, só queria me divertir, naquela noite não soltei um misero néscio sorriso, eu estava me divertindo, eu era o performer, eu falava o que queria, eu fazia o que queria, eu sentia o vazio da noite como se fosse o mágico, o dono da escuridão, e eis que aparece o autodeclarado, o filósofo sem filosofia, o escritor sem poesia, o famoso que ninguém lembra... ele queria, como sempre, pagar de presença, distribuir VIP’s, camarotes ruins em lugares falidos, ele queria, como sempre, alguém que o adulasse, os confetes que ele mesmo arremessa sobre si; e de longe ele vinha, ele gritava, me chamava, pejorativamente, porque a palavra lhe sai soprada entre os dentes; ele vinha desengonçado e eu via os confetes caindo do seu bolso, e eu só o olhava - querendo virar fumaça – ele chega, começa o discurso ensaiado, repete perguntas que não espera respostas para emendar em vanglorias de festim a espera de saliva, mas nesse dia eu era o performer, eu era o dono da noite, eu era o nirvana junkie, o capeta em forma de guri e simplesmente ignorava, enquanto ele apertava o rec, eu existia, enquanto ele conjecturava ficções, espécie de mentiras matéricas, eu apenas existia, não contava feitos, inclusive omitia o que era, o que fazia, omitia nome, idade, profissão, eu apenas agia, cheirava, beijava, dançava, eu era nada e por isso era o dono da noite, e ele atrás de incautos que pudesse converter em fãs numa apologia furada de um nome que ninguém lembra.

Diego Marcell

2017

14.5.18


Estou com um problema sério: não consigo dormir e depois não consigo acordar. Está cada vez mais difícil ver a luz do sol. Produzo e não termino. Barrado borrado inconstante. Sem energia. Cabeça vazia. Corpo pede e a mente não tem mais força. Preciso dormir mas não tenho porque dormir então levo cada momento. Às vezes desconcentro, às vezes perdido retorno. Às vezes inconstante choro, berro, gargalho. Mergulho me afogo no raso e volto. Sem praia nem concreto. O mato me ojeriza. A floresta nada causa, ela sofre.
Hoje decidi mais um plano de carreira, destino: teatro. Como? Não sei. Quer dizer, até sei, mas esse destino não pode mais ser rígido, diante do que vem ocorrendo eu aprendi, destino rígido não dá. Mas é preciso um bom banheiro e um bom colchão. Um fogão. É preciso dinheiro pro gás.
Perambulo pela casa, em busca de alguma emoção. Provoco os passantes na rua, todos me ignoram. Provoco na internet, ignorado mais ainda. Sou escassez do que fui. Sou pó de existente, mas ainda percebo muito do que fazer.
Sinto falta de ler, Hesse, Kundera, Dostoiévski. E os filósofos nem me falem. Sinto falta das festas, dos porres e às vezes da maconha. Mas sinto ainda mais falta do jazz e do synthpop.
Quero filmar os roteiros com novas atrizes. Quero ser ator de outros diretores. Quero voltar a editar os muitos materiais que tenho e que nem estão comigo. Não tenho computador nem programa pra isso.
Afogado em fumaça de cigarro pirata. Embriagado de café. Escurece, meu almoço/janta. Minha janta. Madrugada em neblina me instiga, não há fantasmas, vozes de inexistentes. Começo a perceber a decadência do corpo. As dores por qualquer engano. Por qualquer movimento torto uma semana de dores. Desconforto interno, externo, músculo, respiração e olhos embaçados. Começo a perceber a decadência do corpo e ainda assim preciso lutar. Como será correr, jogar, pular? Pressão baixa, apago, volto, nada sei da vida e da morte, posso apenas sumir e deixar de dizer ladainhas.
Como um forasteiro ando fazendo muita merda. Em um mês já fui agredido, tentaram arrancar coisas de minhas mãos, já separei brigas e me envolvi com a polícia. Mesmo não fazendo nada além do que costumo fazer sendo o que sou simplesmente. Apenas existir pode ser ao outro motivo de conflito, afronta, geração de desconforto e estopim de fragilidade.
Tenho tinta e não tenho tela.
Posso apenas ir, ser efêmero, pra que tanta tragédia? Transformaram os ditirambos em estátuas, desde então a festa é barrada por leis. As leis servem aos fracos, e eis que a humanidade taxou a decadência como um direito à vida, agora a vida está decadente porque o fraco reina num trono erguido por covardes.
Eu sou uma partícula de vida que flutua onde já não se vive sem aparelho e eu me recuso a vestir a máscara.

Diego Marcell
06/05/2018
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