Oficialmente meu único
inimigo possível é minha mente, ao mesmo tempo que ela me derruba com um
simples e frágil desnorteio da linguagem e me leva a profundas depressões,
sempre foi através dela, inimiga e escudo mitológico de um eu alterado desde do
nascimento que construí muralhas capazes de enganar os ataques e barrar os
dardos que um capanga - mandado por um diabo que habita em mim - arremessou,
ele é dois, sem duvida ele é dois, assim como o deus dos cristãos é três, meu
inimigo é meu herói, meu adversário é meu guarda-costas, e isto em termos bem
díspares, é realmente paradoxal, e eu não tenho como explicar como isto se dá.
Levando em conta este
ente, e por sua culpa tenho dificuldade de lidar com os elogios, por mais
seguro das minhas qualidades o elogio sempre se materializa duvidoso diante de
meus olhos, talvez por isso uma construção tão complexa foi criada a ponto de
eu não me fazer estigmatizado pelo mundo, apesar dos professores que sempre
declararam minha derrota, e da fala de todos a minha volta almejando o pior.
Não levei nenhum deles sobre meus ombros, mas os transformei em degraus que me
davam prazer de pisotear. Talvez por isso também sempre me senti mais a vontade
diante de inimigos declarados, sempre me senti seguro diante de quem queria passar
sobre mim para seguir, e eu posso dizer que sempre segui...meu maior prazer
como futebolista foi ter uma torcida adversária lotando a arquibancada, não
para decepcioná-los, mas era como se fosse para instigar um espetáculo mais
curioso, apresentar ineditismo de obra, a provocação da vaia era como se me
colocassem uma carta secreta na manga, ser provocado sendo o artista principal
chega próximo ao orgasmo cósmico. Enquanto a maioria quer o aconchego da
presença materna e os aplausos ovacionados de pé, eu sempre pensarei como mais
próximo a honestidade da verdade humana o exército de inimigos toscos querendo
covardemente lhe arremessar no desfiladeiro e tendo a certeza que nada podem se
eu sei o que há dentro de mim, o inimigo real, diferente da voz que proclama
purezas mas que esconde raiva, inveja ou desonestidade intelectual, estes não
formam o estigma de um eu em nenhum tempo, estes se amarram em seus próprios
atos, suas palavras são grãos de areia neste mundo, ninguém vai perceber.
Evidente que queremos
reconhecimento, eu também desejo, mas ao mesmo tempo este problema psicológico
me ataca e o prêmio se torna um constrangimento, é como se eu só me achasse
digno de defender minha verdade diante dos acusadores, aquele que me elogia,
portanto, me derrota num ato displicente como quando um golpe acerta e você
apaga nocauteado, assim como Aquiles e o seu tendão; enquanto a maioria quer
construir a fama através da falsa voz que infla a insegurança humana, eu diante
da glória duvido, apenas duvido de que possa realmente o homem ser construído e
permanecer, diante da inolvidável futilidade de sua existência.
Diego Marcell
10-9-14
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