10.7.12

Espelho do espelho



            Pai, estamos envelhecendo eu sei, é a natureza que não aprendemos a aceitar, mas devemos. E o que podemos deixar? Eu sou sua herança e o que eu deixarei? Não sei. Talvez livros, talvez um pé de limão.
            Quando fiz 21 anos percebi o tempo pela primeira vez, hoje nele só quero aprender a ser, se não evoluo como individuo nada mais me importa. Mas o que importa é que jamais devemos nos prender a temporalidades, você sempre estará comigo em essência, assim como tenho meus antepassados, aqueles que nem conheci, mas contigo será mais que isso, tem a ver com exemplo, com pratica, com convivência e a distancia só vê o que é bom, e a distancia nos aproxima, nos faz reconhecer coisas em nós que não sabíamos.
            Saiba que meu silencio jamais foi indiferença, sempre foi contemplação. Aprendi que isto é um dos maiores atributos da vida, e é o que busco aprimorar, mas me sinto tão longe ainda.
            Eu estarei longe, cada vez mais, e te levarei sempre, e rememorarei sempre que se fizer pedir a circunstancia. Vejo-te sempre por aí, nos gestos dos outros, nas falas, nas similaridades, muitas vezes remeto a ti sem motivo.
            Só espero que você saiba extrair felicidade do teu sempre, eu não sei como estão as coisas aí, no seu interior, mas como disse João Manuel Simões: “Não há diferença sensível entre ontem, hoje e amanhã. Depois de amanhã, os três serão igualmente passado.” Todo nosso gesto é um signo na eternidade, e nosso amor não tem limitação física, ele percorre por várias naves, a memória, a cumplicidade, a fraternidade. Mesmo porque conseguimos romper o tempo quando fomos contemporâneos no mesmo time, no mesmo jogo.
            O mito paterno deve cair e devemos passar à pneumofagia*, assim não haveremos mais de sofrer com copias inconscientes, mas teremos epifanias evidentes, graças a lucidez do “eu”.
            Saudade? Palavra que só se encaixa em nossa língua, não é sentir falta, é sentir-se próximo através da vida. Como disse um outro João e este você conhece bem: “quando o espelho é bom ninguém jamais morreu.” (João Nogueira)
            Eu sempre estarei aí, em algum lugar, com você, com quem é sangue, é genética e forma, por alguma razão nós existimos, Deus quis assim, convergir fatos para causas, não importando onde eu esteja agora, estou contigo, sempre, é o Mistério que nos escolheu. Enquanto não houve aceitação entre tantos pais e filhos, nós não precisamos forjar nada, apenas vivermos, podemos amar sem explicação, é o que basta. Obrigado.

Diego Marcell
09-07-2012


*pneumofagia = alimentar-se do espírito do outro.

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